Lei criada por Trump pode estimular aumento das exportações de calçado em Birigui

ARNON GOMES – BIRIGUI

Nova lei de comércio exterior sancionada neste mês pelo presidente norte-americano Donald Trump pode impactar positivamente o setor calçadista em Birigui. Conforme noticiou nesta semana o jornal “Valor Econômico”, a medida passará a vigorar prevendo a redução de tarifas de importação para mais de 1,6 mil produtos, dentre eles o calçado, carro-chefe da economia do município. Com a regra, a expectativa de economistas e de parte do setor é de que haja um estímulo às exportações de calçados brasileiros para os Estados Unidos – o maior mercado consumidor do produto no mundo e que, até março, era o principal destino das exportações nesse segmento no Brasil.
Segundo o ‘Valor’, 40 categorias de calçados reduzirão tarifas que, até então, oscilavam entre 6% e 37,5% sobre o preço do produtos. Segundo a Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), 60% dos pares vendidos aos Estados Unidos ficarão isentos, fazendo com que cheguem mais baratos ao varejo americano.
Para o economista Marco Aurélio Barbosa, da FAC-FEA (Faculdade da Fundação Educacional Araçatuba), esta conjuntura tende a beneficiar diretamente Birigui, especializada em calçados infantis, mas que conta também com produção voltada ao público feminino. Ele cita pelo menos quatro aspectos favoráveis ao setor na cidade.
O primeiro deles é o dólar alto, hoje acima dos R$ 4. “Com isso, as exportações de calçados ganham competitividade no mercado externo, favorecendo o crescimento das vendas”, diz Barbosa, autor do livro “O Cinquentenário da Indústria do Calçado Infantil de Birigui: Pioneiros e Empreendedores (1928-2008)”.
Outro aspecto citado pelo docente tem relação com o mercado interno brasileiro, atualmento com baixo crescimento. Essa situação, analisa Barbosa, leva as empresas locais a buscarem alternativas para escoar a produção. “Agora, com o câmbio favorável e as recentes medidas do governo americano, o cenário se mostra positivo para percorrer esse caminho de abertura de novos mercados”, acredita ele.
O terceiro ponto favorável a Birigui, segundo o estudioso, reside no fato de o PIB dos Estados Unidos estar em crescimento. Na opinião do economista, esta situação aumenta a demanda por produtos, dentre os quais o calçado.
GUERRA COMERCIAL
Por fim, Barbosa cita a guerra comercial entre Estados Unidos e China, marcada pela imposição de tarifas extras aos asiásticos. Esse contexto, na avaliação do economista, tende a fazer os produtores locais de calaçados a venderem no mercado americano. Isso porque a China é a maior exportadora de calçados para os Estados Unidos e forte concorrente brasileiro. “Com a guerra comercial, os produtores brasileiros ficam livres para abrir mercado nos Estados Unidos e fazerem parcerias, pois muitas redes, possivelmente, terão que substituir os fornecedores chineses. Neste contexto, elas podem optar por fornecedores de calçados brasileiros”, explica.
PARCEIRO
Se estas expectativas se confirmarem, os Estados Unidos poderão se tornar um importante destino das exportações locais. Hoje, a maior economia do mundo não está entre os dez principais destinos das exportações locais. Outra expectativa é que o cenário poderá favorecer o aumento da balança comercial de Birigui.

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RETRANCA 1

Para haver aumento, produtor local precisará inovar

Mesmo com todas as possibilidades de crescimento visualizadas na indústria calçadista de Birigui, o economista Marco Aurélio Barbosa afirma que a venda para o mercado americano exigirá do produtor local avanços sob o ponto de vista da qualidade do calçado. Isso, segundo ele, passa pela melhoria do design e até a substituição de matéria-prima no processo produtivo, trocando o sintético pelo couro.
Entre as categorias de calçados que terão as tarifas reduzidas com a nova lei de Trump, estão incluídas as de materiais sintético, couro, tecidos e de segurança. “Por outro lado, esse processo torna o produtor local mais competitivo, favorecendo a busca de outros mercados além do americano, o mercado de alta renda.”
EMPREGO
O aumento das exportações pode fortalecer a geração de emprego e renda na cidade. Os resultados do setor calçadista têm sido influentes nas estatísticas referentes à abertura de postos de trabalho na região.
O segmento puxou o acumulado de cerca de 1,2 mil empregos na indústria regional neste ano, conforme a última pequisa Nível de Emprego na Indústria, divulgada semana passada pelo Ciesp (Confederação das Indústrias do Estado de São Paulo) e pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

Apesar do otimismo, setor não vê resultado a curto prazo

Apesar de a notícia que vem do outro lado das Américas ser bem-vinda, o setor vê a medida com cautela.
O gerente de exportações da Klin, Leandro Camargo, pondera que a diminuição das tarifas não é válida somente para o Brasil, mas para outros parceiros também. “São todos, inclusive a China”, afirmou ele, ressaltando que analisará a forma como a fábrica poderá se beneficiar. Para isso, disse ele, a empresa já pediu à Abicalçados informações sobre os segmentos da indústria calçadista que poderão ser contempladas com o plano americano.
Já o empresário Samir Nakad se mostra animado com a nova lei dos Estados Unidos, mas não acredita em soluções a curto prazo. Ele vê um “aparente benefício” com a medida. “Creio que, em razão de o mercado americano ser maduro, a relação deles com os fabricantes asiáticos irá fazer com que procurem uma alternativa par não perderem o fornecimento, pois não podem ter desabastecimento de produtos”, analisa.
Por outro lado, Nakad vê a possibilidade de os empresários locais buscarem parceiros nos Estados Unidos. No entanto, ele pondera que esse é um processo longo. “O benefício será sentido somente a longo prazo”, diz Nakad. “O que precisamos é de uma solução rápida para as nossas indústrias que estão demasiadamente ociosas.”

Números de Birigui

Confira, abaixo, alguns dados em relação produção calçadista local neste ano:

– US$ 26 milhões é o volume exportado entre janeiro e agosto deste ano
– US$ 10,5 milhões é o volume importado em 2018, até o momento
– US$ 15,5 milhões, o superávit acumulado nos dois primeiros quadrimestres
– 25% é o quanto o calçado representa das exportações locais, ou seja, US$ 6,5 milhões
– Principais destinos das exportações locais: China, Argentina, Taiwan, França e Bolívia.

Fonte: Ministério da Indústria, Comércio e Desenvolvimento.

 

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