CRISTALDO, CONHECIDO PELA IRREVERÊNCIA, DIZ EM ENTREVISTA QUE QUASE PÔS FIM À PRÓPRIA VIDA

Na última quarta-feira, o atacante Cristaldo, ex-Palmeiras (2014/2016), revelou ter passado por uma depressão profunda e quase colocou fim à própria vida. A revelação se deu a menos de uma semana do 10 de Setembro, Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. A transferência de clube, com a confiança do técnico contratante, e o trabalho de uma psicóloga foram fundamentais para o jogador retormar a carreira em alto nível. Hoje, o atacante argentino de diz “mais vivo do que nunca”.

Em entrevista ao jornal argentino Olé, especializado em esportes, o jogador revelou que inúmeros problemas, que pareciam se complicar a cada dia, fizeram com que pensasse em se matar. “Eu Tive muito pensamentos. Lembro-me que uma vez, enquanto estava a dirigir, eu entrei num ataque de pânico … Pensei em bater com o carro. Foi muito feio, pensei em pôr fim à minha vida, essa é a realidade”, afirmou Cristaldo na longa entrevista.

De acordo com o atacante, no Vélez Sarsfield (Argentina), onde esteve em 2016/2017, ficou inativo por três meses. Foi o momento mais complicado, conforme admitiu ao Olé: “Coincidiu com os três meses que estive parado no Vélez, sem fazer nada. Isso estava acabando comigo. Além disso, tive muitos problemas pessoais, sobretudo com familiares e amigos, foi horrível. Isso também influenciou bastante”.

Encerrado o período de empréstimo cumprido no Vélez, o jogador se transferiu para o Racing, também da Argentina, e na mesma entrevista ao Olé, garantiu que hoje “está mais vivo do que nunca”. Cristaldo atribui sua recuperação ao técnico de seu atual clube, Eduardo Coudet, que apostou no futebol dele, mesmo estando fisicamente fora de forma. Outro profissional importante para que retomasse a carreira, foi a psicóloga que o acompanhou no período em que se encontrava em estado depressivo.

A angustia do jogador se encaixa na explicação do filósofo Mário Sérgio Cortella: “Suicídio é uma solução definitiva para um problema provisório”. Com o intuito de conscientizar sobre a prevenção, o Centro de Valorização da Vida (CVV), Conselho Federal de Medicina e Associação Brasileira de Psiquiatria criaram em 2014 a campanha Setembro Amarelo, mês em que o combate ao problema é intensificado.

IRREVERENTE
Jonathan Ezequiel Cristaldo, de 29 anos, não é um astro de primeira grandeza no mundo do futebol. Entretanto, tem um perfil que o faz parecer “imune” ao suicídio. Como pessoa, é extrovertido e irreverente. E mesmo longe de ser cogitado na lista de melhores do mundo, atuou em grandes clubes, como Palmeiras, Bologna (Itália), Cruz Azul e Monterrey (ambos do México), Vélez e Racing, além de uma partida com a camisa da seleção principal da Argentina.

Com tal currículo, ganha um salário invejável para a maioria dos trabalhadores dos países em que atuou e vive em um mundo de “glamour”, apesar da pressão que o futebol impõe e das dificuldades existentes em qualquer profissão. Diante disso, fica a pergunta: “O que leva uma pessoa com esse perfil a pensar em suicídio?”.

De acordo com a psicóloga clínica Isabela Fernanda Christófano Junqueira, de Araçatuba, vários fatores estão ligados às causas do suicídio. “Não é o fato da pessoa ter uma vida financeira estabilizada, que está imune a qualquer problema”, destaca a profissional, que neste mês tem proferido palestras sobre o assunto.

Isabela Junqueira explica que esportistas de alto nível convivem com muita pressão e fortes emoções, que podem contribuir para o desenvolvimento de doenças mentais e, consequentemente, pensar em suicídio, como foi o caso de Cristaldo. “Os jogadores estão a todo tempo tendo que lidar com a pressão dos jogos, treinos diários, a preparação intensa, expectativas dos jogos, mudanças de clube, lesões. O jogador pode sentir-se deprimido em não conseguir lidar com tudo isso. Aí está a importância do acompanhamento de um psicólogo do esporte, juntamente com uma equipe multidisciplinar, para auxiliá-lo. Além do preparo físico, é importante o preparo e a saúde metal para prevenir problemas futuros”, conclui Isabela Junqueira.

 

Goleiro de quatro Copas se matou pouco antes de ir para futebol árabe

Carlos José Castilho, um dos melhores goleiros da história do futebol brasileiro e do Fluminense FC (Rio de Janeiro), não suportou a “dor interna” que o angustiava e pôs fim à própria vida no dia 2 de fevereiro de 1987, aos 60 anos, quando se atirou da cobertura de um prédio no Rio de Janeiro. Antes de sua morte, havia assinado contrato para ser técnico de um clube dos Emirados Árabes Unidos, onde deveria ganhar dinheiro como nunca na longa carreira.

Uma das versões, dão como motivo uma crise amorosa. Outra, seria a frustração por ter caído no ostracismo depois de uma carreira gloriosa com a camisa do Tricolor Carioca nos anos 1940/50/60, período em que autou em 702 jogos e tomou 808 gols. Ele também defendeu a Seleção Brasileira em quatro Copas do Mundo: 1950 (Brasil), 1954 (Suíça), 1958 (Suécia) e 1962 (Chile), embora tenha sido titular apenas na primeira. Estudioso, Castilho também se destacou como treinador de clubes importantes, como Operário (MS) e o Santos. No time da Vila, inclusive, ele foi campeão paulista de 1984.

No prédio de onde se jogou para a morte, morava sua ex-esposa. “Em 1987, Castilho foi visitar sua ex-mulher e, inesperadamente, saiu correndo pela sala e jogou-se pela janela do apartamento, sem explicações ou carta de despedida”, descreveu o blogueiro José Inácio Werneck, em postagem do dia 22 de janeiro de 2013.

Carlos Castilho, também conhecido no mundo do futebol como “Leiteira”, é outro exemplo de que os motivos do suicídio são diversos, conforme explicação da psicóloga Isabela Fernanda Christófano Junqueira, de Araçatuba. Ele estava prestes a embarcar para o mundo árabe, uma das regiões do mundo em que os técnicos de futebol são mais bem remunerados. “Não é o fato da pessoa ter uma vida financeira estabilizada, que está imune a qualquer problema”, destaca a profissional. (Antônio Soares dos Reis/Araçatuba).

 

Cartilha esclarecedora da Associação de Psiquiatria está disponível para download

A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) elaboraram a cartilha “Informando para Prevenir”, disponível para download (www.abp.org.br). Na publicação, consta que 96,8% dos casos de suicídio foram acompanhados de doenças mentais, que podem ser tratadas. “A informação direcionada à população é muito importante para orientar e prevenir”, destacam os autores.

A cartilha orienta desde leigos até autoridades em saúde, com capítulos intitulados “Posvenção do suicídio” e “O que compete à equipe de saúde como um todo”. Também orienta quanto às competências das atenções primárias, secundárias e terciárias nos serviços de atendimento aos pacientes, já que a Organização Mundial de Saúde (OMS) trata o problema como saúde pública.

A ABP, o CFM e o Centro de Valorização da Vida (CVV) são os criadores da campanha Setembro Amarelo, existente desde 2014, segundo o Ministério da Saúde. Na cartilha da ABP e CFM, há orientação de como participar da campanha, inclusive com material pronto para confecção de panfletos, banners, camisetas e cartazes. Tudo disponível para download. Mais informações podem ser obtidas pelos telefones da ABP (21) 2199-7500 ou do CFM (61) 3445-5940 e ainda pelos e-mails comunicacao@abp.org.br e imprensa@portalmedico.org.br (Antônio Soares dos Reis/Araçatuba).

 

SINTOMAS DO SUICIDA:
Isolamento social;
Tristeza profunda;
Falar muito sobre a morte;
Falar que não há razão para viver;
Uso de expressões, como “Não aguento mais”;
Comportamentos impulsivos e agressivos.

 

PREVENÇÃO/AJUDA:
A pessoa com “sintomas” deve pedir ajuda;
As pessoas que notam “sintomas” devem oferecer ajuda;
Ao ouvir uma pessoa com “sintomas”, deve-se agir com serenidade;
Os sintomas não devem ser encarados como “frescura”;
Os “sintomas” não devem ser encarados como “fraqueza”;
Procurar/encaminhar a grupos da ajuda (CVV, por exemplo);
Procurar um profissional (psicólogo ou psiquiatra).

Antônio Soares dos Reis

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