EXPERIÊNCIA ÚNICA: ACOMPANHAR UM PARTO

Desde o final da semana anterior, estávamos de sobreaviso. A qualquer hora, poderia acontecer. As bolsas para serem levadas à maternidade já estavam até prontas. O parto da Carolina, então previsto para 30 de julho, precisaria ser antecipado. Estava de 37 semanas. Porém, como os dias foram passando e nada de chamada do médico, nas primeiras horas daquele 20 de julho, confesso que me senti surpreso. Sim, chegava o dia em que eu viraria pai. Eram nove e meia da manhã, quando o doutor Winneton Coelho Lima telefonou para Cintia Brasileiro, minha esposa, chamando-a para ir às pressas à Santa Casa de Araçatuba.

Antes das onze, já estávamos no hospital. Hoje, passadas três semanas daquele momento, fico me perguntando o motivo de não ter ficado tenso. Era o nascimento da minha primeira filha. Pela primeira vez, nasceria uma araçatubense na família. Pela primeira vez, iria acompanhar uma cirurgia. Pela primeira vez, iria acompanhar um parto. Em conversas com colegas e até mesmo médicos, não tinha ouvido relatos muito animadores sobre o acompanhamento desse procedimento. Em um dos casos, soube que um policial desmaiou ao ver passo a passo.

Apesar de muita gente desconhecer, acompanhamento de parto é algo previsto em lei. Sendo assim, preferi ter as minhas observações.

Em meio a um momento dedicado a dar total atenção à Cintia, disparava mensagens de WhatsApp a familiares, todos moradores de cidades localizadas mais de 500 quilômetros de Araçatuba, informando-lhes que a neta, sobrinha e prima estava prestes a chegar. Por outro lado, estava com uma preocupação: iria conseguir acompanhar ou não o parto? Perto das onze e meia, veio a confirmação. A autorização estava nas mãos.

Ao precisar deixar o quarto onde Cintia estava para pagar o estacionamento, encontro no próprio hospital uma amiga e colega de profissão, a jornalista Ana Paula Saab. Logo, fiquei me perguntando: como é a vida? Foi justamente Ana Paula quem me apresentou à Cintia há exatos dez anos. Uma década se passou e, mais uma vez, ela estava presente em um momento crucial da nossa vida. “Precisando de qualquer coisa, você me chama”, disse-me ela naquela sexta, o “Dia do Amigo”.

Chegou o começo da tarde. Cintia, enfim, foi levada para trabalho de parto. Enquanto ela passava pelo anestesista, eu me preparava. Já com a vestimenta adequada, aguardava ser chamado, momento em que tive a oportunidade de receber mensagens de carinho e felicitações pelo nascimento de minha filha de dois pacientes internados no hospital: de um moço que enxerga apenas 10% de uma vista e se recuperava de uma queda sofrida em casa; além de uma moça que faria cirurgia de apendicite.

Veio, então, a minha vez de entrar na sala de cirurgia. O procedimento foi rápido. Passei a maior parte do tempo de mãos dadas com Cintia e registrando, na medida do possível, alguns momentos. Sinceramente, não sei o que é mais emocionante: ouvir aquele primeiro chorinho de quem estava na barriga ou, simplesmente, vê-la saindo de lá? Melhor é não eleger nenhum momento, mas apontar o simples fato de ser testemunha ocular de uma vida que acabou de chegar. E mais: da sua própria filha.

Carol veio levinha. Pesava 2,4 quilos, 44 centímetros. Das quatro crianças nascidas naquele dia, foi a menor em tamanho e peso. Não conseguia esconder a felicidade naquele momento. Lembro-me que, naquele momento, pais que estavam aguardando o nascimento de seus filhos e enfermeiras comentavam sobre o meu sorriso, que, segundo eles, era diferente dos demais.

A partir das três e quinze daquela tarde, minha vida, então, mudava. Sendo pai, posso dizer, no sentido próprio da palavra, que vi minha filha nascer. E recomendo, a quem puder, que procure acompanhar o nascimento de seus filhos. É uma experiência nobre, capaz de fazer o homem compreender melhor o lado da mulher e mais: sensibilizá-lo sobre o sentido da vida. Tendo visto o começar da caminhada de Carol, sei da responsabilidade que será estar presente nas próximas etapas de sua vida. Isso quer dizer não apenas vê-la crescer, mas estar junto e educar para ser a melhor pessoa possível, missão esta que é de todos os pais.

ARNON GOMES
Araçatuba

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