MARIA CRISTINA DOMINGUES: UM EXEMPLO DE ASSISTÊNCIA COM EXCELÊNCIA

“Eu sempre me agarrei aos estudos, porque entendia que, somente por esse meio, eu conseguiria construir uma história diferente, com oportunidades melhores”. Foi com esse pensamento que a atual secretária municipal de Assistência Social e Participação Cidadã de Araçatuba, Maria Cristina Domingues, construiu sua trajetória. Nascida em 23 de março de 1967, cresceu em um bairro muito simples de Guararapes e morou, até os 18 anos, com nove irmãos, além de primos e sobrinhos. “Tudo era dividido, então, a alimentação era pouca, as roupas eram poucas e as acomodações eram apertadas para todo mundo”, relata.

Aos 18 anos, Domingues terminou o ensino médio e começou a trabalhar em uma creche. Na época, ela frequentava a paroquia Imaculada Conceição, de Guararapes, e recebeu do padre do local a proposta de fazer curso superior em Teologia. “Era um convite da Igreja Católica para leigos. Eu não tinha tanto interesse em fazer a Teologia, mas vi nessa proposta a oportunidade de sair de Guararapes e buscar novos horizontes”, explica. Domingues, então, ingressou na Faculdade Auxilium de Lins (FAU), que, atualmente, não existe mais, já que se somou ao Unisalesiano. Durante o período do curso, que foi de 3 anos, Domingues morou, durante um período, no seminário da igreja. Posteriormente, residiu em uma casa com mais 9 pessoas.

Após terminarem a faculdade, a diocese que frequentavam entrou em processo de divisão e Maria Cristina fez a escolha de morar em Araçatuba. Ela decidiu, então, continuar estudando, e ingressou em 1991 no curso de Administração de Empresas, no Centro Universitário Toledo (Unitoledo), se formando em 1995.

Passados alguns anos, Domingues engravidou e, por descobrir que sua filha tinha uma doença e necessitava de cuidados especiais e investimentos, ficou alguns anos sem estudar. Após iniciar o tratamento da criança, Domingues prestou vestibular, em 2003, para o curso de Serviço Social, na Universidade de Lins (Unilins). “Foi um grande sacrifício conseguir chegar ao final, porque eu morava em Araçatuba, tinha minha filha, estava recém-divorciada, pagava aluguel, não tinha um salário muito alto e minha mãe morava comigo. Ainda assim, decidi ir.” Maria Cristina encontrou uma pessoa também interessada em fazer o curso e passou a dividir as despesas com transporte. Ao final do curso, ambas foram consideradas as melhores alunas da sala. “Mesmo com a dificuldade de viajar 190 quilômetros todos os dias para ir a Lins e voltar, terminamos a faculdade com menos faltas que os demais”, relata.

Maria Cristina começou muito cedo a trabalhar. Com 10 anos de idade, foi babá de duas crianças; aos 13, aprendeu a bordar e trabalhou como bordadeira em uma indústria de Guararapes; foi secretária de uma vidraçaria e, também, de uma creche; em Lins, foi secretária da Igreja e da cúria diocesana; em Araçatuba, foi secretaria da cúria da subdivisão regional e trabalhou, posteriormente, como conselheira tutelar, em 1995; trabalhou também em um sindicato de aposentados ferroviários e, posteriormente, no Instituto Criança Feliz. Domingues conta que o Instituto a marcou muito, porque o projeto atendia crianças e adolescentes na área da educação e saúde. “O Criança Feliz oportunizava o tratamento e medicamentos para as crianças que precisavam recebê-los, mas não os encontravam no SUS e não tinham dinheiro para pagar por eles. Muitas crianças puderam, inclusive, frequentar escolas particulares através desse projeto.”, explica.

Posteriormente, Domingues ingressou na empresa de calçados Pampili. Segundo ela, esta organização ficou sem a pessoa que era responsável pelo relacionamento com os funcionários e resolveu experimentar a contratação de uma assistente social para preencher a vaga. “Através desse trabalho, tive a oportunidade de atender em outros municípios, porque a empresa tinha dois polos a mais, sendo um em Vicentinópolis e o outro em Paranaíba. A organização tinha uma preocupação muito grande com seus colaboradores, o que sempre admirei muito. Penso que, quando os funcionários são valorizados, eles trabalham com muito mais força de vontade e, com certeza, produzem mais”, afirma.

Para Domingues, todas as experiências e especializações acumuladas no decorrer dos anos contribuíram para sua formação enquanto ser humano. Segundo ela, esse conjunto de vivências reflete, até hoje, na sua forma de ver o mundo. Um exemplo disso é que, desde criança, Maria Cristina presenciou a construção de diversos centro comunitários nas comunidades que pertenciam à paróquia que frequentava. Muito próximo de sua casa, foi construído um, em mutirão, pela própria comunidade. Domingues se recorda que, como não haviam cadeiras no local, no dia da inauguração, cada família doou uma de sua casa. “Nesse salão comunitário, eu fiz a catequese, aprendi a pintar, a conviver com demais igrejas do bairro; nele fazíamos festas, quermesses, reuniões e missas. Então, eu sempre soube, desde criança, que o Centro Comunitário é um lugar para acolher a comunidade, e que a comunidade é responsável por ele. É o famoso ‘do povo para o povo’. Querer atribuir o cuidado desses locais à Prefeitura é o mesmo que dizer que a Prefeitura é dona deles, o que é mentira, já que eles são da própria comunidade”, conclui.

Maria Cristina se lembra, com muito carinho, de sua mãe, Olga Alves Domingues. “Ela era uma mulher semianalfabeta, nascida em 1931 e muito à frente das mulheres de sua década, já que pensava muito diferente. Eu tinha minha mãe como um espelho”, relata.
No âmbito político, Domingues foi convidada, em 2008, para ser assessora da então vereadora Edna Flor e, hoje, ocupa o cargo de secretária municipal de Assistência Social. Para ela, é muito importante a participação da sociedade nas decisões públicas. “A cidade pertence à sociedade. Se ela não der sua parcela de contribuição, que vai além do voto, é como se aceitasse que os políticos façam na cidade o que bem entenderem. A participação da sociedade funciona como fiscalizador do que é feito pela cidade”, afirma. Para Domingues, a emancipação de um povo não se dá apenas pelo voto, mas também por sua participação efetiva.

“Se você tem uma família ou algo que te inspira a ser diferente, você conseguirá fazer a diferença. Porém, algumas pessoas não têm condição de fazer escolhas sozinhas e precisam de um empurrão. Se aqueles que têm menores condições não forem ajudados, talvez não encontrem oportunidades para chegar onde aqueles que têm mais condições chegaram. Às vezes, é necessário jogar uma corda e puxar essas pessoas, principalmente quando elas não têm motivação e forças para fazerem isso sozinhas. Eu sempre vi no Serviço Social essa possibilidade de ajudar cada pessoa em sua individualidade. Por isso, não tenho dúvidas de que é essa a minha vocação”, conclui Domingues.

Paula Santos

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