Intervenção militar no Brasil atual: os prós e contras

ARNON GOMES – ARAÇATUBA

A população desabastecida. Faltava combustível. Faltava comida. Faltava (e ainda falta) gás de cozinha. Faltava remédio. No campo, que vinha salvando a economia brasileira nos últimos anos, só perdas. Um colapso!

Em meio a todas essas carências, vários gritos ecoavam no meio de multidões em Araçatuba e em vários cantos do Brasil: por uma intervenção militar no País. As manifestações decorrentes da greve dos caminhoneiros começavam a ver o seu lado político à medida que o governo Michel Temer (MDB) não conseguia chegar a um acordo com representantes dos motoristas de transporte de carga e o drama da população só aumentava nas cidades.

Diante desse quadro, ocorrido em um momento como nunca se combateu a corrupção no País, contar com os militares no poder seria a solução? Já se passam 33 anos da saída do último general que estava no poder, João Figueiredo. Em 2018, completam-se 30 anos da atual Constituição, que consolidou a democracia no País após duas décadas de Regime Militar. 

O momento é, portanto, de reflexão. Nesta semana, a reportagem de O LIBERAL REGIONAL ouviu dois intelectuais, de diferentes segmentos, e com visões distintas sobre a bandeira defendida por manifestantes na semana que passou. De um lado, o entendimento a favor de uma intervenção; do outro, o posicionamento contrário.

A favor

Do jeito que está, intervenção ocorrerá de forma natural

Policial militar aposentado e economista formado pela FAC-FEA (Faculdade da Fundação Educacional Araçatuba), Evandro Everson Santos diz que, antes de tudo, é contra qualquer ruptura de governo de forma inconstitucional.

Porém, acredita que, diante da situação vivida já há algum tempo pelo Brasil e se não houver mudança, um eventual retorno dos militares ao poder poderá acontecer de forma natural.

“Vejo com muita preocupação o atual momento vivido pelo País”, afirma. “Constitucionalmente, Michel Temer é o presidente. Mas a greve dos caminhoneiros, que é legal, mostrou o quanto ele perdeu de autoridade”, avalia o militar. 

No entendimento de Evandro, a proporção tomada pela manifestação foi suficiente para revelar o quanto a manutenção da ordem foi “gravemente arranhada”. Ressalta o economista: “E a manutenção da ordem, por sua vez, é uma prerrogativa das Forças Armadas”.

Por isso, Evandro faz uma previsão: “Se, na eleição de outubro, a população não eleger um governo forte, que resgate as instituições, naturalmente, o Brasil vai caminhar para uma intervenção”.

Ele diz ainda que, diferentemente de 1964, quando foi implantado o regime militar, desta vez, “é o povo, nas ruas, que está pedindo”. Em Araçatuba, na última segunda-feira, dezenas de pessoas se reuniram em frente ao Tiro de Guerra para pedir que os militares assumissem o controle da nação.

Dessa forma, o economista acredita que o pleito de outubro será o “tubo de ensaio” para o futuro do Brasil. Ou seja, caso não haja a mudança que, ao seu ver, é necessária, os militares irão se fortalecer. “Sou a favor de uma intervenção, mas de forma constitucional”, finaliza Evandro.

Contra

Brasil não precisa de intervenção, mas de nova liderança, diz professor

Professor no curso de História do Unitoledo (Centro Universitário Toledo), de Araçatuba, e doutor em Geografia Humana pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), César Gomes da Silva avalia que o medo e a insegurança fazem com que o povo tente buscar no passado um modelo contrário ao atual – no caso, o dos militares.

No entanto, César faz uma ponderação sobre a memória do antigo regime. “Memória não é história. A memória trabalha com recortes do passado. Nesse caso, o Regime Militar passou a ser visto como um modelo próspero de segurança”, diz. “Daí, vem o lado negativo, que passa a ser o pedido de intervenção, sendo visto como o caminho para o equilíbrio.”

Para o estudioso, não se pode pensar em intervenção hoje porque a situação atual é diferente da que levou à ruptura ocorrida em 1964. “Naquela época, o mundo vivia a Guerra Fria e os Estados Unidos colaboraram com a instauração desses regimes em todo o mundo. E havia ainda o interesse das Forças Armadas”, explica. “Hoje, já está bem claro que não há interesse do alto comando das Forças Armadas.”

Na avaliação do professor, nesta década, o Brasil tem vivenciado fatos semelhantes aos vividos nos primeiros decênios do século passado e que acabaram resultando na Revolução de 1930, responsável por levar Getúlio Vargas ao poder.

“Houve, naquele período, vários movimentos difusos que mostraram o enfraquecimento da chamada República Velha, como o Cangaço, a Semana de Arte Moderna, o Movimento Tenentista… No final, apareceu Vargas, que era visionário, com ideal nacionalista”, analisa. “Hoje, acontece a mesma coisa, com vários movimentos, como este dos caminhoneiros, a intelectualidade dividida e, como na década de 1920, a crise mundial repercutindo no Brasil.”

Se, naquele tempo, a crise levou Vargas ao poder, agora, o ideal seria, então, surgir uma nova liderança, na avaliação do professor. “É isso que o atual momento está mostrando: a necessidade de o País ter uma nova liderança”, finaliza.

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