Paciente do CAPS-II de Três Lagoas reencontra filhos após mais de 30 anos

Esta é uma história que emociona a quem conta e, principalmente, a quem participou diretamente dos fatos e sentiu a alegria da realização profissional de ver solucionado um problema que vinha se arrastando há mais de 30 anos, e que, acabou trazendo benefícios terapêuticos incalculáveis a uma paciente com transtornos psiquiátricos.

Trata-se da história de Cleonice José da Silva, de 54 anos, paciente do Centro de Atenção Psicossocial – CAPS II, unidade de atendimento de saúde mental da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Três Lagoas.

“A Cleonice, ou melhor a Cleo, como é conhecida por aqui, é nossa paciente, praticamente, desde que o CAPS-II foi aberto em Três Lagoas. A família dela, como descobrimos há pouco tempo, é de Rinópolis (SP), cidade a pouco mais de 70 km de Araçatuba”, contou a coordenadora do CAPS-II, enfermeira Patricia Alvarenga Azambuja.

“Não sabemos, exatamente, há quantos anos a Cleo mora em Três Lagoas, sozinha e longe de sua família”, informou Patrícia.

“Até há poucos dias, a Cleo era uma paciente tranquila, que seguia o tratamento e participava de todas as atividades do CAPS, sem problemas”, explicou a terapeuta ocupacional, Ligia Zílio Lima.

Nas ações específicas do CAPS, a Lígia é a “terapeuta de referência da Cleonice, como paciente do CAPS. Nós a chamamos de TR da paciente. Isso quer dizer, que a Lígia é que, normalmente, acolhe e mais está a par das particularidades da paciente”, explicou a coordenadora do CAPS II.

Com o apoio e a participação do colega de trabalho, o psicólogo Douglas Torres, esta história teve final feliz, “graças ao empenho, dedicação, compromisso, competência e profissionalismo de toda a nossa equipe”, ressaltou a coordenadora do CAPS-II.

SAUDADES E LEMBRANÇAS
A terapeuta ocupacional do CAPS-II informou que, até então, a paciente Cleonice, “em momento algum, em todo esse tempo de tratamento, se referiu à maternidade, casamento, família. Quando questionada sobre isso, ela sempre procurava distrair nossa atenção com outros assuntos, que nada tinham a ver com isso”, lembrou Lígia.

Por estes dias, para surpresa terapeuta Lígia Lima, a Cleonice queixou-se que estava com saudades da família e dos irmãos, sem referir-se a filhos ou eventual ex-marido “e essa situação de visível tristeza, saudade e solidão, que antes não havia sido demonstrada, nos preocupou e despertou nossa atenção e curiosidade”, comentou Ligia.

A paciente insistia, a toda a hora, em querer rever a família, conforme relataram os profissionais do CAPS-II de Três Lagoas.

“Por meio do Cartão – SUS (Sistema Único de Saúde), começamos a localizar alguns parentes da Cleonice e pelas redes sociais, chegamos a fotos da família dela e outras informações”, contou Ligia.

Ao ver algumas das fotos, mostradas à paciente, “Cleonice se transformou por completo e seus olhos brilharam de alegria e esperança, nunca vistos nela”, contou a Ligia Zílio Lima.

“Ela chegou a abraçar o monitor do computador, não querendo mais soltá-lo, dizendo que ali dentro estava a sua família, que não mais iria perder de vista”, contou.

Em seguida, graças ao Cartão-SUS, a equipe do CAPS-II tomou conhecimento, pelo nome da mãe da Cleonice, que ela possuía seis irmãos, alguns morando no Rio de Janeiro (RJ) e que, ao menos, um deles também possuía transtornos psiquiátricos e residia em Casa Terapêutica.

Passado um mês desta descoberta inicial da localização da família, “notamos mudanças positivas no comportamento da Cleonice, mostrando que algo mais ainda deveria ser esclarecido”, contou a terapeuta ocupacional.

SAUDADES DOS FILHOS
Para surpresa da equipe do CAPS-II, um dia a Cleonice “me falou que estava com muitas saudades dos filhos, que haviam tirado dela, quando ainda crianças e antes de se mudar para Três Lagoas”, contou Ligia.

A partir daí, recomeçaram as buscas, usando as redes sociais e outros contatos já adquiridos na localização inicial dos irmãos da paciente.

Nesse trabalho, a equipe do CAPS-II descobriu o ex-companheiro da Cleonice, também com transtornos psiquiátricos, que reside numa Casa Terapêutica, pai dos três filhos da paciente.

“Conseguimos localizar os filhos e o ex-marido da Cleonice, graças a um casal, o senhor Nelson e a senhora Luiza, zeladores de uma igreja, em Rinópolis, a Igreja de Santa Rita de Cássia”.

Com “a ajuda desse casal, também localizamos os filhos da Cleonice, ou seja, Rogério, o mais novo com 30 anos, o Isaías de 37, que é o mais velho, e o Tiago, filho do meio, que não sabemos a idade”.

Dos três filhos da Cleonice, apenas Tiago não possui transtornos psiquiátricos, mas também não demonstrou, de início, o interesse em conhecer a mãe.

“Graças ao Rogério, o filho mais novo, que também reside em Casa Terapêutica e que demonstrou interesse em conhecer a mãe, chegamos aos outros dois filhos da Cleonice”, comentou a Ligia.

HISTÓRIA DO COLAR
Logo que soube que a equipe do CAPS-II havia localizado sua família, a Cleonice passou a ter comportamento diferente, participando ativamente de tudo, especialmente, das oficinas de terapia ocupacional.

Entre as atividades, Cleonice se interessou em confeccionar um colar, que ela dizia ser “um presente que daria para a futura nora”.

“A partir daí, percebemos que as oficinas passaram a ter um significado e objetivos especiais e definidos para a nossa paciente”, comentou a terapeuta ocupacional do CAPS.

Um dos colares feitos pela Cleonice foi pessoalmente entregue ao filho Rogério, que não mais se separou desse presente da mãe.

Segundo a coordenadora do CAPS, “antes de tudo isso acontecer, estávamos seriamente preocupados com a Cleonice e até cogitávamos um local para ela se mudar, já que mora sozinha”, contou a enfermeira Patricia.

Concluindo, já que o final da história ainda se estenderia por mais relatos, a equipe do CAPS-II, com o apoio da coordenadora Patrícia, está se mobilizando para possibilitar mais uma viagem da Cleonice à cidade de Rinópolis, onde terá oportunidade de participar da festa de casamento do irmão mais novo e irá rever, mais uma vez, os filhos.

Ao comentar sobre o primeiro reencontro que teve com os filhos, Cleonice assim se expressou: “foi o dia mais feliz da minha vida e tudo passou a ser mais lindo, desde esse dia. O medo de morrer sozinha, sem voltar a ver meus filhos e meus irmãos, foi-se embora de vez”, disse a Cleonice.

Vale ressaltar nesta história que toda a mobilização para localizar a família da Cleonice, assim como despesas de transporte, uso de carro próprio e custo de combustível foi por conta da Ligia e do psicólogo Douglas Torres.

Da Redação

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