Estudantes criam jogo digital que ajuda no ensino de estudantes com autismo

Da observação ou da convivência com as dificuldades de quem sofre algum tipo de deficiência, dois universitários de Araçatuba resolveram fazer um projeto voltado à inclusão social para encerrar o curso de graduação em ADS (Análise e Desenvolvimento de Sistemas). Yago Lagrotti Bracco, de 25 anos, conta que uma de suas melhores amigas tem um filho portador de autismo. O pai de Fábio H. Yajima, 35, por sua vez, tem deficiência auditiva. Dessas experiências, a dupla criou o “AutHelper”, que, traduzindo, significa “ajudante de autistas”.

O nome foi criado para, simplesmente, justificar o propósito do projeto: ajudar crianças autistas. Na prática, trata-se de um aplicativo que consiste na utilização de jogos digitais para auxiliar o aprendizado de menores com autismo.

ESTUDOS

Toda o método de utilização do programa foi desenvolvido após os alunos conhecerem o trabalho de entidades da região que prestam atendimento a portadores de deficiência. Yago foi ao Crie (Centro de Recuperação Integração do Excepcional) de Guararapes, enquanto Fábio, ao Instituto para Cegos Santa Luzia, de Araçatuba.

A partir de então, começaram a perceber a grandiosidade do que estavam elaborando. “Percebemos, nessas visitas, que o projeto poderia ser trabalhado não só com autistas”, destaca Yago. “Percebemos que poderia ser usado, inclusive, por crianças menores para aprender a ler, porque a didática dele não é cansativa.” 

A grande vantagem, diz ele, é que pais e professores podem ter o controle dos estudantes, porém, dando-lhes mais liberdade. “Com esse aplicativo, o aluno aprende e estimula o cérebro a aprender cada vez mais”, completa.

Orientador do trabalho, o professor Ronnie Marcos Rillo explica que uma das preocupações foi transportar o que fora passado na teoria para o software. Daí, a preocupação com o uso de cores, por exemplo. Após pesquisas, foi constatado que o uso de cores fortes provoca dores nos olhos das crianças. Por isso, os pesquisadores desenvolveram um aplicativo que consiste em atividades com figuras e letras. Na própria parte do alfabeto, trabalha-se com a associação de objetos a letras – um exemplo está na letra “A”, que é associada ao desenho de um avião.

“O jogo é inteiramente falado. Procura promover a diversão sem ultrapassar os próprios limites, sem que o aluno perca o interesse durante o aprendizado”, afirma Yago, destacando a utilização de cores bem sólidas e sons repetitivos. “Tudo é dito pausadamente para a criança.”

EXPECTATIVA

Inicialmente, o projeto foi pensado para competição de startups promovida pela Renault. Até então, o objetivo dos agora analistas de sistemas era mais aprender do que serem premiados.

Porém, virou um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), que foi apresentado no final do ano passado. Antes mesmo de chegar a pais e educadores, a iniciativa já começa a render frutos. 

O trabalho foi um dos três finalistas do 5º Desafio Inova Paula Souza de Ideias e Negócios, na categoria Educação, no mês passado. Agora, o projeto está na fase de testes. Yago e Fábio pretendem conseguir parcerias para levá-lo a escolas e ao público em geral.

Entre mais de dois mil, projeto foi um dos 36 melhores em SP

Apesar de não ter sido o vencedor do Prêmio Inova Paula Souza, o trabalho de Fábio e Yago foi reconhecido. Conforme o professor Euclides Teixeira Neto, que também leciona na Fatec de Araçatuba, desde 2013, o Centro Paula Souza, entidade mantenedora de escolas e faculdades profissionalizantes no Estado, realiza, anualmente, esse prêmio. Ao todo, são 12 categorias, sendo “Educação”, a disputada pela dupla araçatubense, uma delas.

Na última edição, houve 2.275 projetos cadastrados. Desses, foram escolhidos 36 melhores, sendo três em cada categoria. 

Em cada área, para a final, classificavam-se três. Único de projeto de Araçatuba na fase final da disputa, o trabalho de Fábio e Yago concorreu com o Projeto Evo, da Fatec de São Paulo; e “Realidade virtual para seis sentidos no aprendizado de idiomas e no ensino de deficientes auditivos”, da Etec (Escola Técnica Estadual) Getúlio Vargas, também da capital paulista.

A final ocorreu na semana retrasada, em São Paulo, em cerimônia que contou com a participação de autoridades do governo estadual, da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e ponteciais patrocinadores.

“Fico muito feliz porque um trabalho desse consegue devolver para a sociedade o imposto que ela pagou. E mais: percebemos os alunos preparados para o mercado de trabalho. Eles retribuem para a sociedade o que aprenderam aqui”, avalia o professor Ronnie.

ARNON GOMES – Araçatuba

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