A corrente solidária em prol da nova batalha enfrentada pelo pequeno Ian

Quando o pequeno Ian Ferraz Lazzarini, de Araçatuba, fez o primeiro implante para a colocação de aparelho completo de audição, um médico disse à mãe da criança, Márcia Angelo Ferraz Lazarini:

– Seu filho está com uma Ferrari na cabeça!

A comparação, que podia parecer exagerada, justificava-se pelo valor do equipamento: R$ 80 mil, bancado pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Do primeiro implante para cá, já se passam quase cinco anos, exatamente o tempo de vida do menino, que tem deficiência auditiva total. Apesar da pouca idade, a trajetória do garoto é marcada pela superação. Não bastasse a surdez, já venceu meningite e parada respiratória, problemas atribuídos aos 60 dias passados na UTI, devido ao nascimento prematuro, de 7 meses. Agora, ele está diante de um novo desafio.

Márcia e seu marido, Wanderley Sérgio Lazarini, tentam juntar exatos R$ 30 mil para comprar um processador externo do aparelho. A criança, que é hiperativa, quebrou o material no começo do ano enquanto brincava.

a3 ian1
Documento, com registro da Anvisa, que mostra o preço do aparelho necessitado por criança

Esforços para resolver o problema o quanto antes não faltaram ao casal. Poderiam tentar o conserto, a um custo bem inferior, de aproximadamente R$ 6 mil, junto à fornecedora, a Advanced Bionics, dos Estados Unidos.

O problema é que, desde janeiro deste ano, a empresa encerrou a venda do processador de som Harmony para usuários de implante coclear CII e HiRes 90k. A assistência técnica e a venda de acessórios para usuários do processador está garantida até 31 de dezembro de 2018, conforme comunicado de 25 de setembro do ano passado assinado pelo diretor da empresa no Brasil, José Roberto Barbosa.

Logo, Wanderley se viu diante da seguinte questão: “Tudo bem, vamos consertar, e se quebrar de novo?” Certamente, ficaria na mão. Afinal, a empresa foi clara aos seus clientes quanto ao fim da manutenção. Diz o texto do diretor: “A partir dessa data (31 de dezembro de 2018), o processador Harmony e seus acessórios serão obsoletos e a AB Brasil irá descontinuar a assistência técnica para usuários de implante coclear CII e HiRes 90k deste modelo de processador, exceto para os usuários que ainda estarão cobertos pelo prazo de garantia padrão da AB”.

AÇÃO

Márcia e Wanderley tentaram, novamente, via SUS, mas o tempo previsto de espera, em torno de dez meses, desanimou os pais de Ian. O jeito foi, então, arregaçar as mangas. Chegaram a pensar em fazer rifas.

Mas, em pouco tempo, uma ampla corrente de solidariedade se formou em torno da causa. Na escola em que Ian frequenta, “onde todos se adaptam a ele”, conforme conta a mãe da criança, ao falar, emocionada, sobre a acolhida ao seu filho, fizeram uma “Páscoa Solidária”. Todo o dinheiro arrecadado, R$ 3 mil, foi revertido para a compra do processador. A partir dali, as ajudas só aumentaram. De uma mãe de aluno da escola, veio um cheque de R$ 2,5 mil. Outra doou R$ 1,5 mil. Uma amiga do Rio de Janeiro mandou R$ 500. Da cunhada de Cuiabá (MT), doação de R$ 1 mil. Houve primas, de Araçatuba e de Goiânia, que doaram, cada uma, R$ 300.

a3 ian2
Mesas doadas à família que serão usadas em jantar beneficente na véspera do Dia das Mães

Agora, Márcia se prepara para realizar um evento a fim de obter o dinheiro que falta. Em 12 de maio, véspera do Dia das Mães, realizará a “Ação entre Amigos do Ian”, que, além de um jantar, terá o sorteio de vários brindes, como bicicleta, whisky, microondas, entre outros objetos. Assim que divulgou a ação em rede social, o casal recebeu doações de vários produtos para premiar no bingo. Um deles, aliás, emociona Wanderley. Veio de um senhor, do São José, um dos bairros mais carentes de Araçatuba, que doou uma mesa de madeira.

  • SERVIÇO
  • Quem quiser colaborar com o casal, participando do jantar, pode entrar em contato pelo telefone: (18) 99180-8836.

Criança foi adotada após processo de quase um ano

Tamanha comoção para ajudar Ian tem uma causa. Quem conhece o casal – ela, auxiliar administrativa e dona de um buffet; ele, mecânico auxiliar – sabe o quanto Ian é especial. Márcia e Wanderley o adotaram após processo que levou quase um ano. Na ocasião, eles já eram casados havia 24 anos. Márcia tinha ainda perdido quatro filhos em gestações e, juntamente com o esposo, decidiu pela adoção no Dia das Mães de 2011. Em novembro de 2012, o casal conseguiu a guarda provisória de Ian. Sete meses depois, veio a definitiva.

A descoberta da deficiência do filho veio já no primeiro dia da adoção. Logo, ela procurou a ajuda de uma prima, que é fonoaudióloga. Em poucos meses, ele começou a passar por tratamento especializado no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, “Centrinho”, em Bauru. Ian também passa por sessões com fonoaudióloga e de tratamento cognitivo, além de ter aulas com uma pedagoga para aprimorar o aprendizado de forma lúdica.

Emocionada com a solidariedade recebida, Márcia diz que sempre teve a certeza de que Ian veio para mudar a vida dela e de seu marido, fazendo-os ainda mais felizes. “Nós só temos a agradecer a todos que estão nos ajudando. Tudo isso mostra o quanto o brasileiro é bom e solidário”, finaliza ela.

Arnon Gomes – Araçatuba

você pode gostar também