30% dos flagrantes de tráfico de drogas envolveram crianças e adolescentes na região

É cada vez mais comum o envolvimento de crianças e adolescentes no mundo do crime na região de Araçatuba. Essa perspectiva pode ser notada nos números de ocorrências registradas sobre o tráfico de drogas nos últimos dois anos. Além de ter recebido um aumento de cerca de 25% nas prisões em flagrante pelo tipo de crime entre 2016 e 2017, segundo a Polícia Militar 30% dos casos envolveram a participação de menores de idade.

Um levantamento feito pela reportagem do jornal O LIBERAL REGIONAL junto à Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo revelou que em 2016 foram registradas 1.474 prisões ou apreensões em flagrante por tráfico de drogas na região de Araçatuba, que incluem outros 43 municípios. Já em 2017, a estatística aumentou 24,28%, registrando 1.832 ocorrências do mesmo tipo. Para o Tenente Coronel Paulo Augusto Leite Motooka, do Comando do Interior 10 de Araçatuba, o aumento cada vez maior da criminalidade envolvendo crianças e adolescentes está ligado a diversos fatores psicossociais, além da expansão das drogas no Brasil, sobretudo da maconha e da cocaína.

“É pertinente dizer que o Estatuto da Criança e do Adolescente preconiza medidas socioeducativas mais pertinentes à faixa etária do infrator, ou seja, no senso popular “o menor não fica preso”. Esta pode ser uma de tantas outras variáveis que justifica o envolvimento cada vez mais comum de menores”, acredita.

Junto a isso, segundo o policial, na década de 1960 o perfil do usuário de entorpecentes no país mudou, deixando de ser somente a classe social mais baixa e adentrando para o cotidiano da classe média brasileira. Outro fator preponderante à Motooka foi o surgimento do crack, um tipo de droga mais acessível, pelo baixo custo que é vendido pelos traficantes.

“Vários são os fatores que favoreceram esta expansão, dentre outros, podemos destacar a precariedade da rede de apoio, atendimento, tratamento e recuperação do adicto que associados ao esgarçamento do ambiente social (família, religião, educação), constituem em um ambiente cujos fatores psicológicos, sociais, ambientais e biológicos influem com maior ou menor tendência uma pessoa à dependência. Não se pode descartar a falta de política pública para fazer frente a tal demanda. Nesse sentido, podemos inferir que o aumento de pessoas consumindo ou comercializando drogas ilícitas guarda relação com tais fatores”, complementou.

Para a Polícia Militar, com o aumento do tráfico de drogas e do acesso facilitado a diversos tipos de entorpecentes, outros crimes também aumentam consideravelmente na região. “Como reflexo dessa ascensão do tráfico de entorpecente, outros delitos emergem à reboque deste fenômeno, quais sejam, furto, roubo, homicídio, razão pela qual a Polícia Militar na região tem incrementado, nos dois últimos anos, especialmente, seu planejamento operacional com escopo de fazer forte repressão ao tráfico de entorpecente, considerando que uma vez combatendo esse delito, outros serão mitigados por consequência. Em síntese, foram direcionados os esforços para prender traficantes e combater o comércio de drogas sejam elas quais forem”, informou.

Ainda de acordo com a polícia, grande parte das pessoas presas por tráfico de drogas na região se intitula integrantes de uma facção criminosa que age dentro e fora dos presídios paulistas, o que mostra que o crime organizado também contribui para o aumento dessas estatísticas.

PROGRAMA DE APOIO
Diante de um quadro cada vez mais crescente sobre o tráfico de entorpecentes na região, muitas pessoas têm a impressão que programas sociais e até mesmo de combate às drogas oferecidos pelo governo do Estado podem não estar apresentando tanto eficácia, o que denota uma eminente rapidez em mudanças nas políticas públicas.

O Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência), por exemplo, é desenvolvido nas escolas públicas e particulares, nos 5º e 7º anos do Ensino Fundamental, na educação infantil e para adultos com o Proerd para Pais. O objetivo é transmitir uma mensagem de valorização à vida, e da importância de manter-se longe das drogas e da violência.

Para a polícia, o programa não deixou de ser incisivo à resistência das drogas, mas ao longo da vida dos jovens, outros fatores acabam contribuindo para a mudança de comportamento das crianças e adolescentes. “A questão é que com o crescimento da criança, adolescente ou jovem, outros fatores psicossociais causam conflitos de toda ordem no jovem, o que pode levá-lo a encontrar nas drogas um meio de fuga ou enfrentamento da realidade. Isso não quer dizer que o Proerd deixou de ser incisivo à resistência, mas que, na minha percepção, decorre de uma geração em que o jovem está menos resiliente, com pouca resistência às frustrações e pouco racional, o que o torna vulnerável às ações dos traficantes”, opinou.

Vitor Moretti

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