Voluntária abre mão do carro novo para fazer doação a hospital

São pelo menos seis décadas de entrega a um ofício que, apesar do tempo, não cansa dona Maria Ionice: o voluntariado. Hoje, aos 68 anos de idade, casada, aposentada, com os dois filhos crescidos e realizada profissionalmente após uma trajetória de muita superação, seu principal trabalho é se dedicar, de forma incansável, a campanhas assistenciais.

Na última delas, esta mineira de Boa Esperança (MG) fez uma das ações mais vultosas de toda a sua trajetória de preocupação com o próximo. O dinheiro da poupança, guardado nos últimos anos com o objetivo de trocar o carro, foi inteiramente destinado a uma ação da Santa Casa de Araçatuba, iniciada em novembro de 2017, com o objetivo de adquirir capotes (aventais usados por médicos) e campos cirúrgicos. E a investida não ficou por aí. Ela ainda doou seu décimo-terceiro salário e realizou eventos beneficentes a fim de angariar recursos para a iniciativa.

Maria Ionice prefere não divulgar a quanto, financeiramente, chegou sua colaboração. Mas, considerando-se o valor estipulado pelo hospital para a aquisição de três mil peças, percebe-se o quão genoroso foi seu ato. A meta era chegar a R$ 78.225,00. E, segundo ela, ainda falta, porém bem pouco, dinheiro para alcançar esse objetivo.

Mal deu a sua significativa contribuição para a campanha do enxoval, uma nova ação fez Maria Ionice arregaçar as mangas da solidariedade. Na condição de coordenadora da Pastoral da Saúde, onde atua voluntariamente há exatos dez anos, ela trabalha, no momento, para adquirir cerca de 3,8 mil lençois.

Para atingir o volume estabelecido pelo hospital, foi calculado o montante de R$ 85.109,00. Esse trabalho ocorre após pouco mais de um ano ela ter costurado cerca de 720 lençois para doar à Santa Casa. Na campanha deste ano, segundo ela, iniciada há 20 dias, a expectativa é contar com o apoio de prefeituras da região de Araçatuba. Ao todo, a Santa Casa atende pacientes de 42 municípios. “Estamos suplicando o apoio da população”, diz.

Solidariedade é movida pelo sonho de ver a ‘casa santa’

a3 voluntária2.JPG

Todo esse esmero que Maria Ionice tem na atuação solidária é movido por um sonho: fazer da Santa Casa, onde funciona a pastoral, uma verdadeira “casa santa”, segundo afirma a própria voluntária.

Diz ela, ao explicar esse desejo: “Isso significa fazer ‘jus’ ao nome de Santa Casa. Cabe a nós chamarmos essa responsabilidade. Não estamos munidos de passar por aqui um dia. Todos nós somos usuários do SUS (Sistema Único de Saúde). Aqui é onde se dá o primeiro socorro”.

Apesar do sorriso que facilmente exibe ao contar suas histórias de vida, Maria Ionice faz essa definição com a propriedade de quem já testemunhou inúmeros casos dramáticos no hospital, lidando, paralelamente, com a escassez de recursos. Ela fala do morador de rua que ali chega, do preso que chegou algemado e enfrentava um câncer já em estado delicado… Enfim, episódios não faltam.

E esforços nunca também faltaram para atender quem chega da maneira mais humana possível, nem que, para isso, fosse necessário partir ao meio um sabonete ou uma toalha e, assim, ninguém deixasse de receber a devida assistência. “Contemplamos a miséria na acepção da palavra. Sinto, trabalhando na Santa Casa a necessidade de cada gente. Por isso, digo que aqui é a melhor universidade da vida”, resume esta senhora sexagenária, que, antes da Santa Casa de Araçatuba, trabalhou por 11 anos no Hospital Ritinha Prates, onde foi tutora de três pessoas.

Grupo pauta trabalho no atendimento humanizado

A humanização norteia todo o trabalho da Pastoral da Saúde. O grupo que Maria Ionice coordena, de aproximadamente 30 pessoas, realiza o trabalho periódico de fazer visitas a doentes.

Organizada em nível nacional, a Pastoral da Saúde é pautada nas funções comunitária, solidária e político-institucional. E é sobre esta última, aliás, que Maria Ionice sente maior responsabilidade, pois consiste, principalmente, no papel de orientar os pacientes sobre qual é o melhor serviço de saúde a se recorrer, dependendo da situação.

Sobre essa conscientização, Maria Ionice diz que a formação em direito, conquistada no início dos anos 2000, após estudar na Unip (Universidade Paulista), foi primordial. “Hoje, a saúde é muito judicionalizada. Então, com o conhecimento jurídico, sinto-me no dever de orientar”, afirma ela, ao comentar sobre a quantidade de ações que pacientes entram na Justiça a fim de conseguir um atendimento ou um remédio em falta na rede pública.

Da portaria à direção do Fórum Trabalhista

a3 voluntária3.JPG

Até se tornar advogada, a estrada foi longa na vida de Maria Ionice. Ela começou a trabalhar como doméstica com quase 8 anos idade, ainda em sua cidade natal, no sul de Minas. Era uma forma de ajudar os pais, que trabalhavam na lavoura de café. É da humilde infância também que vem a lembrança da primeira doação que lembra ter feito.

Então com 6 anos de idade, num belo dia, um grupo de homens portadores de doenças distintas, que, frequentemente, pediam esmolas à sua mãe, passou pela residência da família. Pelo fato de seus pais não estavam, coube, então, à pequena menina atendê-los. Como não alcançou o lugar onde sua mãe havia deixado o café para servi-los naquele dia, por causa de seu tamanho, Maria Ionice pegou uns cruzeiros (moeda brasileira à época) trocados e deu aos humildes cavaleiros.

De Boa Esperança, a família de Maria Ionice foi para outro município mineiro, Pratápolis. Quando ela estava com 14 anos, veio para Araçatuba. Somente dois anos depois, ela começou a estudar. Aos 16, idade em que a maioria das pessoas hoje está terminando o ensino médio, Maria Ionice ingressou no primário. Foi aluna na tradicional Escola Estadual Cristiano Olsen. Daí, não parou mais de estudar, nem trabalhar e, claro, doar.

Antes de direito, cursou enfermagem. Trabalhou na equipe de limpeza de uma empresa terceirizada na agência do INSS de Araçatuba. Quando concluiu o ensino médio, prestou concurso da Justiça do Trabalho. E passou. Começou como agente de portaria e se aposentou em 2010 como diretora do Fórum.

 Respeitada e lembrada com muito carinho pelas pessoas com quem trabalhou naquela instituição, Maria Ionice ainda mantém contato com colegas do Fórum. Não foi à toa que, recentemente, ela recebeu a doação de 20 ares-condicionados, logo, repassados pela voluntária a diferentes salas do hospital.

Criada com doações e fazendo doações, ela aprendeu uma lição, ao concluir que ser voluntária é um ciclo sem fim e porque, até hoje, não se cansa de doar: “Não se faz caridade pela metade”.~

Da Redação – Araçatuba

você pode gostar também