Ademar Gomes: uma lição de vida em palestra para internos da Fundação Casa

O terno impecável e o nó perfeito na gravata não deixaram escapar o olhar humilde e disposto a repassar uma vasta experiência de 75 anos aos internos da Fundação Casa de Araçatuba. Vida essa marcada por sofrimento, fome, ascensão, sucesso e riqueza. Este é o doutor Ademar Gomes, um dos maiores criminalistas do Brasil, que ministrou uma palestra aos 57 jovens que atualmente cumprem pena por algum tipo de ato infracional na “Casa Araçatuba”.
Com livros embaixo do braço, andar calmo, Ademar subiu as escadas até a quadra esportiva, onde a palestra foi realizada. Ao chegar, foi recebido com aplausos. Em cada rosto das crianças e adolescentes era perceptível a curiosidade e admiração, todos ansiosos para ouvirem a trajetória de vida do homem nascido em Andradina, que começou a trabalhar com cinco anos de idade vendendo ossos de carne bovina, até tornar-se engraxate, funcionário de uma agência bancária da cidade e atualmente ser um dos maiores advogados criminalistas do país, com escritórios espalhados por São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Curitiba.
“Sou filho de barbeiro e de uma dona de casa. Passei muitas dificuldades, fome, mas sempre sabendo que eu queria vencer. Duas coisas são as mais importantes na vida. A primeira delas é a saúde e a segunda é a liberdade. É com ela que você consegue fazer tudo, escolher o local em que quer viajar, escolher sua profissão”, elencou.
Ademar usou justamente o tema liberdade para dar início à sua palestra aos internos. Ele mencionou um episódio que jamais irá esquecer, quando um dos maiores traficantes de drogas do mundo mandou um mensageiro até ao escritório do criminalista, na Avenida Brasil, área nobre da capital paulista. Tratava-se do colombiano Juan Carlos Ramírez Abadía, rival de Pablo Escobar, e condenado a 250 anos de prisão. À época, Abadía cumpria pena no presídio de segurança máxima em Tremembé
O informante do traficante conversou pessoalmente com o advogado e ofereceu dinheiro para que o criminalista visitasse o patrão na cadeia. Ademar recusou inúmeras vezes, inclusive quando ofertaram-lhe a quantia de cem mil dólares. Em determinado dia, ele aceitou o convite e visitou o detento. No presídio, teve uma surpresa ao começar o diálogo com Abadía.
“Ele me disse que tinha tudo o que eu pudesse imaginar. Muito dinheiro, aviões, helicópteros, carros de luxo e a família aqui fora. Mas o principal ele não tinha: a liberdade. Isso me fez parar para refletir. Essas crianças e jovens não possuem a liberdade agora, mas é muito importante saber conduzi-las, irriga-las, mostrar o caminho do bem, para no futuro serem melhores e vencedoras”, complementou o advogado.
Os bons exemplos vivem diariamente ao lado de Ademar. Ele também trouxe para palestrar o advogado Matheus da Silva Faria, atualmente seu assistente no escritório de advocacia. Na bagagem da vida, uma infância vivida na periferia e registros criminais, com envolvimento com drogas e furtos. Certo dia, Faria cruzou com Ademar, que além de pagar todas as mensalidades do curso de Direito, deu a ele a oportunidade de crescer dentro do Direito.
Para a surpresa de todos, inclusive dos professores e da diretora da Fundação Casa, Renata Cristina Gonçalves, Ademar anunciou repentinamente a doação de duas bolsas de estudos aos internos que queiram seguir a carreira de advogado. A reação imediata ao anúncio foi uma salva de palmas, misturada com felicidade e a esperança de um dia ser alguém na vida, persistir nos sonhos, passar pelos obstáculos da criminalidade e poderem ser livres. Agora, a instituição escolherá dois internos que tiverem o melhor desempenho nos estudos para serem presenteados com a oportunidade de um futuro melhor e promissor. Mas não parou por aí. O advogado também doou ovos de páscoa, uniformes esportivos, bolas de futebol de salão e livros à instituição. Para Gonçalves, a vinda do palestrante retrata exatamente a infância vivida pelos jovens que ali cumprem pena.
“O doutor Ademar sempre soube aproveitar e acreditar nas oportunidades que a vida proporcionou a ele. Nós como uma instituição socioeducativa temos que resgatar o sonho e devolver esses jovens à sociedade melhores de que quando aqui entraram. É possível, basta acreditar, se esforçar e agarrar essas oportunidades. Temos rapazes que são do bairro Pereira Jordão, lugar onde o doutor nasceu e cresceu. Portanto, essa palestra impactou diretamente na vida deles”, afirmou.
HISTÓRIA DE VIDA
Filho de barbeiro e de uma dona de casa, Ademar Gomes nasceu em Andradina no dia 21 de março de 1943. É casado com a também advogada Fátima Gomes e os dois possuem três filhas. Hoje, o criminalista faz parte da alta sociedade paulistana, com empresa instalada na Avenida Brasil, região dos Jardins, um dos pontos mais caros do Brasil, assessora mais de 300 empresas de grande porte e atua em 13 mil processos no Judiciário.

O salão de seu pai era na Rua Sergipe (hoje Alexandre Salomão). Nesta rua, próxima à estação ferroviária, havia muitas pensões. Muito ativo, o garoto Ademar já ganhava seu próprio dinheiro carregando bagagens de quem chegava à estação ou como engraxate. Foi uma infância típica de cidade interiorana, com brincadeiras como soltar pipa, jogar bolinha de gude e machucar o pé jogando futebol nas ruas empoeiradas da cidade que nasceu.
“Aos 12 anos fui ser contínuo no banco Noroeste e aos 17 anos, ou seja, em 1960, fui transferido para São Paulo. Nunca me envergonhei da minha origem, em todas as palestras que realizo tenho a honra de falar da mesma com orgulho, inclusive de minha querida Andradina”.

Mesmo passando pelas dificuldades impostas pela vida, Ademar não desistiu. Sonhava trabalhar no banco. Para tanto, engraxava o sapato do gerente e sempre insistia por um emprego, mesmo se fosse para limpar o chão da agência. O homem olhava para ele, incrédulo, pois tratava-se apenas de uma criança, quase adolescente, ansiando por uma vida melhor. Até que certo dia, o gerente foi convencido e deu-lhe o emprego.

Além de trabalhar e brincar, como toda criança, Ademar não se descuidava dos estudos. Em1963, já como funcionário do Banco Noroeste, formou-se em técnico de contabilidade e, em 1975 em Direito. “Sempre tive vocação pelo Direito e, principalmente pela área criminal, pois entendo que o advogado não defende o crime, mas sim a aplicação justa da lei”.

O advogado Ademar Gomes e o seu escritório estão à frente de rumorosos casos, como de um paciente que foi abusado sexualmente por um enfermeiro dentro do hospital. A vítima estava sob efeito de medicamentos controlados. Existem outros, como de David Santos de Souza, que perdeu o braço em um atropelamento na Avenida Paulista; Eloá Cristina, morta pelo namorado em Santo André durante um sequestro, na presença da polícia.

Talvez o maior deles, de grande destaque com repercussão nacional, foi o de Francisco de Assis Pereira, o “maníaco do parque”. Ademar defendeu também a família da adolescente Gabriela Yukari Nichimura, que morreu em um acidente no parque Hopi Hari.

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