População não pode descuidar da raiva, diz pesquisadora da Unesp

A campanha de vacinação contra a raiva está acontecendo desde o dia 12 de agosto e neste sábado (18) diversos postos estão distribuídos pela cidade para aplicar a dose gratuitamente. A meta é vacinar 20 mil animais em Araçatuba, o que corresponde a 85% da população de cães e gatos da cidade. A vacinação ocorre das 8h às 16h e é realizada por profissionais capacitados e treinados, que contam com o auxílio de graduandos em medicina veterinária.

A raiva é uma doença que está controlada no Estado de São Paulo desde o final da década de 1990, quando houve uma epidemia em Araçatuba e surtos em outras cidades da região. O primeiro caso de raiva em Araçatuba foi registrado em maio de 1993 e até julho de 1994 já eram cerca de 100 ocorrências em animais. No mesmo período, Bilac teve cerca de 20 casos também em animais. Foi neste contexto, em janeiro de 1993, que o Laboratório de Diagnóstico de Raiva da Faculdade de Medicina Veterinária da Unesp-Araçatuba foi inaugurado, tendo à época a pesquisadora doutora Luzia Helena Queiroz da Silva como responsável.

Hoje a realidade é outra e é justamente isso que tem preocupado pesquisadores da universidade. Apesar da drástica diminuição nos casos, o vírus ainda está circulando e exige atenção para que não saia do controle. A raiva tem dois ciclos, o urbano e o silvestre, explica a doutora Márcia Marinho, pesquisadora responsável pelo laboratório. “O urbano é muito bem controlado e contido com essas campanhas de vacinação, o esclarecimento, e isso tudo é muito pertinente e importante em termos de prevenção urbana”, diz.

Mas o perigo vem da interferência do homem no habitat natural dos morcegos, pois o vírus da raiva circula naturalmente entre eles sem prejuízo para as espécies. “A destruição das matas, a degradação dos biomas onde estão inseridos é o que altera esse ciclo, por que o morcego ao ter seu nicho degradado ele vem para a cidade, ele vai para o campo em busca de alimento ou novo habitat”, explica a pesquisadora. Essa migração os leva ao contato com outros animais, provocando a passagem do vírus para bovinos, equinos, cães ou gatos por meio da mordida ou contato com a saliva. “Vira e mexe chega um bovino com suspeita e muitos morcegos que deram positivo para raiva vieram de áreas urbanas”, diz. Marinho reforça que embora a raiva seja uma doença histórica ela é até hoje quase 100% letal, pois os tratamentos ainda têm pouco êxito.

DIAGNÓSTICOS E PESQUISA
O Laboratório de Raiva recebe amostras encaminhadas pelos setores de Vigilância Sanitária e Controle de Zoonoses de cerca de 40 municípios da região. São cérebros de animais mamíferos que apresentaram algum sinal neurológico antes do óbito e/ou eutanásia, quando esta é necessária. Os primeiros casos em morcegos foram detectados em 1998 e até hoje foram identificados cerca de 80 casos positivos, o que transformou o animal na principal preocupação dos cientistas envolvidos nas atividades do laboratório.

A veterinária Ana Beatriz Favaro, mestranda que faz pesquisa sobre a contaminação em morcegos, explica que a dificuldade em conter a doença na espécie, como foi feito em cães e gatos, se deve à sua capacidade de dispersão, impossibilidade de vacinação e presença cada vez maior em áreas urbanas. Além de morcegos, a segunda maior demanda são animais de produção (bovinos e equinos) por serem alvos fáceis de predação por morcegos hematófagos (que se alimentam de sangue). Ela diz que a vacinação contra a raiva nestes animais é recomendada, mesmo que não seja obrigatória no Estado de São Paulo, pois a doença pode provocar perdas econômicas significativas.

“@Texto Normal: A última amostra positiva em Araçatuba foi no ano de 2013, mas outros laboratórios, como em Botucatu, já encontrou mais de 20 caos positivos só neste ano. Então existem alguns locais tendo surto nessa época e é preciso ficar atento. A população não pode descuidar da raiva”, diz Favaro, que desenvolve uma pesquisa sobre a contaminação em morcegos. De acordo com ela, seu objetivo é fazer um estudo sobre os 20 anos de atuação do laboratório para identificar qual espécie de morcego apresentou maior positividade para raiva. “Pretendemos contribuir para o estudo da doença nessa espécie que possui um controle mais difícil”, explica. O caso identificado em 2013 foi em um morcego e em 2012 houve um felino positivo para raiva, que foi contaminado por um morcego.

PREOCUPAÇÃO
“A nossa preocupação com vacinar o cão e o gato é justamente por que o vírus está no morcego e o cão e o gato podem entrar em contato, caçar e muitas vezes o proprietário não vê. Se acontecer esse contato o animal precisa estar imunizado, ou ele não sobreviverá à contaminação”, destaca a mestranda. A média de análises em amostras tem diminuído e isso preocupa os pesquisadores. De acordo com ela, como não vêm acontecendo casos em animais domésticos a população não está vendo a epidemia. “Acreditamos que isso ajudou a diminuir o envio de amostras. Já tivemos anos em que recebemos duas mil amostras para analisar. Não há uma frequência específica, mas hoje a gente recebe no máximo 300 ou 400 amostras. Então essa redução nos preocupa”, destaca.

Diante disso, reforça a importância da vacinação. “É um vírus que está controlado graças à vacinação. Foi a vacinação, principalmente a de cães e gatos, que ajudou nesse controle. Ela tem que permanecer enquanto o vírus ainda estiver acontecendo na região, seja em qualquer espécie. Mesmo a gente tendo cerca de quatro anos que não encontra morcegos positivo para raiva ela pode reaparecer a qualquer momento, por que em regiões vizinhas já acontece, como Botucatu, Presidente Prudente”, finaliza.

Fernando Verga

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