“Não tenham preconceito com meu povo”, diz cacique Kaingang em Araçatuba

As palavras do cacique Ronaldo Iaiati, do Posto Indígena Icatu, em Braúna, emocionaram os que estavam presentes na Praça Rui Barbosa na manhã deste sábado (08). “Não tenham preconceito com meu povo”, pediu o representante da etnia Kaingang, uma das que mais povoaram a região até a chegada da estrada de ferro. O cacique e outros índios da aldeia participaram da inauguração de uma obra de arte, um busto em homenagem os índios Kaingang instalado na Praça Rui Barbosa, no Centro de Araçatuba, criação do artista Mário Bueno. Prestigiaram a homenagem o prefeito Dilador Borges, a vice-prefeita Edna Flor, a secretária de Cultura Tieza Marques, o prefeito de Braúna Flávio Giussani, o presidente da Câmara de Araçatuba Rivael Papinha e o presidente da Associação Indigenista de Araçatuba e Região, o índio terena Ricardo Godoi.

A obra de Mário Bueno, que é de Araçatuba, é resultado do Concurso de Apoio a Projetos de Valorização e Preservação da Memória, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura em 2016. O objetivo da competição foi selecionar projetos que se relacionem com fatos históricos de Araçatuba e o artista foi contemplado na categoria de escultura. Bueno explica que fez pesquisa de campo, em acervos de museus e também na internet para elaborar sua ideia. “A intenção desse trabalho foi homenagear os Índios Kaingangs, que eram os moradores originais da região por ocasião da chegada da ferrovia. Ao mesmo tempo, resgato a memória da cidade colocando diversos elementos ferroviários na obra, uma vez que a cidade teve sua origem justamente com a chegada do traçado ferroviário”, explica o artista.

DESABAFO DO CACIQUE

O cacique Ronaldo, que disse ser mais fã de seu arco e flecha que do microfone que estava usando no ato, fez um discurso emocionado ao lembra a história e sofrimento do seu povo. “Nós fomos muito massacrados e depois de tudo o que passamos nós não somos reconhecidos na região. Levem o bom espírito, a boa imagem do índio. Não tenham preconceito com a gente. Já recebi muito preconceito onde eu fui, onde entrei, e eu não quero que os indinhos da minha aldeia sofram como eu sofri”, disse o cacique.

Ronaldo também fez referências aos seus líderes do passado e falou da dificuldade em ser uma liderança atualmente, citando a crise política em que o Brasil passa como exemplo de descrédito. “Eu lembro que não estou aqui sozinho. Tenho as lideranças que foram embora, que morreram, mas eles estão juntos aqui comigo. Não é fácil ser uma liderança agora, não é fácil ser um cacique, um prefeito, um vereador. A gente pede ao pessoal lá em cima, por que meu povo não confia mais em ninguém. A gente pensa no Brasil e não consegue confiar em mais ninguém com tanta coisa que está acontecendo”, desabafou.

“NA MINHA TERRA TEM OURO”

Ao citar as lutas pelas terras, na virada do século XIX para o século XX, quando a ferrovia estava sendo construída, Ronaldo falou sobre as riquezas que seu povo perdeu. “Perdemos muitas lideranças. Muitas morreram no conflito de retomada da terra. O que a gente tem que fazer? Nós somos donos da terra. A gente já estava aqui faz tempo e ainda tem que lutar pra buscar o que é nosso? Eu me pergunto se estamos roubando nossa própria terra. Será que tem ouro na nossa terra para branco invadir?”, questionou.

Entretanto, mesmo após tantas perdas, Ronaldo destacou aos presentes que sua tem ouro sim e se trata de um tesouro precioso que o homem branco não conseguiu destruir. “Na minha terra tem ouro. O ouro que eu falo é a nossa cultura, os nossos índios, a nossa tradição. Muitas pessoas perguntam se tem aldeia aqui perto e nós moramos aqui do lado. Lá na minha aldeia estamos de portas abertas pra receber todo mundo. Minha mãe queria estar aqui hoje para ver a homenagem, para andar onde os parentes dela pisaram. E a gente só quer esse reconhecimento só. Não tenha preconceito com o meu povo. Meu muito obrigado e me desculpe se eu magoei alguém”, finalizou o cacique Ronaldo Iaiati.

NDIOS

COINCIDÊNCIA HISTÓRICA

O prefeito de Braúna, Flávio Giussani, que esteve acompanhado de sua esposa Bernadete Giussani e de equipe de servidores municipais de sua cidade, destacou o empenho que sua administração está tendo em aproximar os indígenas da população que reside na cidade de Braúna. “Quando assumi a administração tive a infeliz notícia de que a nossa aldeia nunca tinha se apresentado na nossa cidade. Isso nos entristeceu e nós não aceitamos isso. E estamos unidos com a aldeia para fazer um grande resgate da cultura Kaingang e da cultura Terena, que são as duas etnias que convivem fraternalmente”, disse o prefeito, que também é presidente da Associação Regional de Prefeitos e usou durante a homenagem elementos dos trajes indígenas.

A presença do prefeito Flávio neste evento Kaingang realizado na Praça Rui Barbosa em Araçatuba traz uma série de coincidências histórias. Ele é bisneto de Adolfo Hecht, cidadão tcheco que veio para o Brasil e fixou-se na região. Adolfo Hecht, além de ser fundador de Braúna, é o responsável pelo desenho da Praça Rui Barbosa e de muitas outras ruas do centro da cidade. Há rua com seu nome no bairro Morada dos Nobres, bem como em outras cidades da região, e ele esteve envolvido com muitas outras figuras histórias que remontam às origens de Araçatuba. “Hoje eu rendo homenagens aos nossos irmãos índios, mas eu também estive do outro lado da história, pois eu vim pela ferrovia”, disse, em referência à chegada de sua família à região há mais de um século. Seu bisavô escapou da emboscada kaingang que matou Cristiano Olsen, por exemplo, durante as revoltas indígenas do século passado por conta da construção da ferrovia.

Flávio também agradeceu o artista Mário Bueno. “Você marca, Mário, com essa postura, a história Kaingang, a história do desenvolvimento, a conjunção desses dois fatores, a convivência necessária desses dois fatores, mas também, ao lado de tudo isso, você marca a sua história como ser humano, como homem responsável para registrar perante a história da humanidade a suas tradições. Parabéns pelo seu trabalho”, disse o prefeito.

A ESCULTURA

A escultura é composta de duas partes: busto e pedestal. O busto foi confeccionado em cimento e ornamentado com cravos ferroviários. No pedestal foram utilizados cravos, parafusos e dormentes ferroviários. De acordo com o autor da obra, cada elemento tem uma simbologia que proporciona uma interpretação abrangente e subjetiva. “Os dormentes, por exemplo, que foram colocados em pé, simbolizam as árvores, florestas e matas que deram lugar aos prédios. As referências são as mais diversas possíveis. A terra deu lugar ao cimento, por isso a escolha desse material para a confecção do busto”, explica.

A obra inteira, pedestal e busto, tem altura aproximada de 2,30 metros; o busto tem o tamanho natural de uma pessoa e pesa cerca de 100 quilos. “Realizar esse trabalho foi muito gratificante por vários motivos: primeiro pelo tema do concurso, que trata da memória de Araçatuba. Em segundo lugar, pela liberdade artística que tive para executar o trabalho. Também foi um privilégio muito grande saber que a obra iria ser instalada na praça mais importante da cidade e, talvez, da região, ou seja, a praça Rui Barbosa”, destaca Mário.

PASSADO VIOLENTO

Mário reforça que o principal motivo da homenagem se deve à grande violência que eles sofreram em virtude da chegada da ferrovia e do homem branco à região. “Por isso a obra traz essa relação entre a ferrovia e o índio”, reforça. Ele diz que não se preocupou em representar um índio real, mas usou de subjetividade para simbolizar a nação toda. A obra foi produzida com o apoio da Prefeitura de Araçatuba e com recursos do Fundo Municipal de Apoio à Cultura.

 

Antes da chegada da estrada de ferro, que data também o início de Araçatuba, em 1908, a região era habitada por Kaingangs, cujos membros foram quase extintos em virtude dos confrontos com colonizadores. Portanto, a cidade foi estabelecida mediante a expulsão dos índios e após diversos assassinatos em massa. “Portanto, os elementos utilizados na elaboração da escultura (busto indígena assentado sobre dormentes em pé) visam criar uma simbologia que representa a relação da ferrovia, os índios e o surgimento da cidade na forma de seus edifícios”, finaliza Bueno.

O ARTISTA

Mário Bueno tem 45 anos e é artista plástico, fotógrafo e escritor. Possui graduação em Direito e pós-graduação em Artes Visuais. Foi premiado em diversos concursos: 3º lugar na categoria regional do Concurso de Contos Cidade de Araçatuba (2016); em 1º colocado na etapa regional do Mapa Cultural Paulista, na categoria artes visuais – fotografia (2015); 1º colocado na categoria regional do Concurso de Contos Cidade de Araçatuba (2015); 3º colocado na categoria regional do Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba (2014); Troféu “Odette Costa”, na categoria artes visuais, pelo destaque cultural em Araçatuba, no ano de 2011; 2º colocado na etapa regional do Mapa Cultural Paulista, na categoria artes visuais – pintura (2011); 1º colocado no Concurso de Fotografia Cartão Postal de Araçatuba (2011); 3º colocado na categoria regional do Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba (2011) e 3º colocado no Concurso de Esculturas “Célio, seu violino e sua praça”, promovido pela Secretaria de Cultura de Araçatuba (2010).

FERNANDO VERVA – Araçatuba

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