Corumbá lava São João no arraial às margens do Rio Paraguai

A vista aérea é a de uma imensa planície alagada. Ao longo de meses a bacia do Alto Paraguai vai transbordando aos poucos e suas águas inundam o Pantanal, uma das maiores áreas úmidas contínuas do planeta, até atingir o ápice no mês de junho. A partir desta época, a água começa a escoar e os rios voltam ao seu curso original. Mas antes de a seca chegar, os festeiros de Corumbá, no Mato Grosso do Sul, município na fronteira com a Bolívia, aproveitam para pagar suas promessas e agradecer as graças alcançadas.
É quando acontece o Arraial do Banho de São João, festa tradicional da cidade e que busca reconhecimento do Iphan como patrimônio imaterial brasileiro. Neste ano, o calendário oficial reserva atrações entre os dias 22 e 25 de junho (confira a programação completa). A prefeitura espera dez mil pessoas diariamente nos eventos, que têm o clímax na noite de 23, com o vai e vem das procissões que carregam centenas de andores pela Ladeira Cunha e Cruz para o banho do santo na margem do Rio Paraguai.

Dona Janete Tinoco, 72 anos, cumpre o ritual de lavar o andor de São João há 40 anos. “Tudo começou porque a minha filha tinha crise de nervos. Ela era bebezinha. Qualquer coisa ela zangava, ficava roxinha, desmaiava… Eu ficava louca da vida, levava ao médico, mas nada dava jeito”, recorda.

A devota resolveu fazer uma promessa a São João e a filha foi curada. Desde então, a vida dela passou a ser regida pelo ciclo das águas do Pantanal. Todos os anos, no dia 23 de junho, há arroz carreteiro e reza para amigos e quem mais quiser adentrar o quintal de Dona Janete. Um reforço para os festeiros que saem em procissão até a Ladeira Cunha e Cruz, no Porto Geral de Corumbá, para dar banho no santo.

No dia seguinte o cardápio no fogão à lenha da Dona Janete é rabada com angu. Em seguida, há a roda de Preto Velho, já que a umbandista é filha de Xangô. Em frente ao altar enfeitado ela faz questão de entoar o hino: “Meu Pai São João Batista é Xangô. É dono do meu destino até o fim e quando me faltar a fé, Meu Senhor, derruba estas pedreiras sobre mim”.

A tradição dos festeiros se espalha por diversas outras casas da cidade. Na varanda do lar da família Ferraz, o altar fica montado o ano inteiro. “O pessoal tem o costume de passar em frente e fazer o sinal da cruz, porque sabe que São João está aqui”, explica Alfredo, que sempre capricha na preparação do andor com a ajuda da mãe Deulinda. O resultado é que eles já ganharam o concurso oficial, que teve início em 2006, por sete vezes.
“São João faz parte da minha vida, desde que nasci. Vivo em função dele. Nossa fé e devoção, aquilo que nos mantém, as coisas do dia a dia, a gente sempre pede força para ele para continuarmos lutando”, exalta o devoto, expressando seu fervor católico que tem início com a novena do dia 15.

Umbanda e catolicismo mostram o sincretismo religioso que se manifesta no festejo junino. Um dos aspectos da riqueza cultural e histórica de Corumbá. Fundada em 1778, a localização geográfica da cidade a tornou um importante centro portuário e estratégico ponto militar, tendo sido, inclusive, tomada pelos paraguaios durante a guerra com o Brasil, Argentina e Uruguai (1864-1870).

O mesmo rio que lava São João e que trouxe diversas correntes migratórias de várias partes do mundo, também alimenta a rica biodiversidade do pantanal, considerado Patrimônio da Biosfera pela Unesco. Um dos roteiros mais procurados pelos turistas é a Estrada Parque Pantanal, com 120 Km de caminho de chão, passando por mais de 80 pontes sobre as vazantes pantaneiras. O passeio perfeito para a observação da flora e fauna, que inclui jacarés, capivaras, tuiuiús e araras azuis.

Pelo caminho, propriedades rurais com opções de hospedagem e gastronomia típica, que oferecem atividades como cavalgadas, passeios de barco, flutuação, pesca esportiva, focagem noturna de animais e contemplação da natureza.

Gabriel Fialho

 

você pode gostar também