Poesia sobre incesto motiva retirada de livro de escolas de Araçatuba

O livro infantil “Enquanto o sono não vem”, do autor José Mario Brant, tem causado polêmica por conta de uma de suas histórias. O material foi rejeitado por escolas do Espírito Santo, o que repercutiu nacionalmente nos últimos dias, e a mesma situação está acontecendo em Araçatuba. De acordo com a secretária de Educação, Silvana de Souza e Souza, os exemplares entregues às 26 escolas de Ensino Fundamental da Prefeitura já foram recolhidos.

O capítulo que está gerando a discussão é o que narra, em forma de poesia, “A triste história de Eredegalda”. Conta sobre um rei que sugere à filha mais nova que ela se case com ele, o que transformaria sua mãe em criada do casal incestuoso. A menina não aceita a proposta e é presa numa torre, sendo obrigada a se alimentar com comida salgada e sem o direito de tomar água. Depois de alguns versos e cansada da tortura, ela cede. O pai aparentemente desiste e oferece a filha para cavaleiros, mas no final ela acaba morrendo.

A secretária explica que o kit de livros faz parte do Programa Nacional Alfabetização na Idade Certa – PNAIC e é encaminhado pelo Ministério da Educação – MEC diretamente para as escolas. “É importante destacar que normalmente esses livros que recebemos do MEC são muito bons, são voltados para crianças de 6 a 8 anos, são livros muito ricos que vem para incentivar o trabalho literário com as crianças. Neste kit vieram outros livros que estão sendo trabalhados, mas no caso deste a gente considerou inadequado”, diz Silvana.

QUESTÃO DE ABORDAGEM

Ela explica que não se trata de uma censura do conteúdo, mas sim de uma proteção às crianças por conta da forma como o tema foi trabalhado. “A equipe pedagógica sempre faz a análise do material para propor encaminhamentos e atividades que possam ser desenvolvidas. Foi quando se depararam com essa história e trouxeram até a mim”, conta a secretária, que tomou uma decisão em conjunto com a equipe de orientar as escolas a não disponibilizar o livro às crianças.

“Chegamos à conclusão de que embora fosse uma temática necessária para se trabalhar na escola, que é a questão do abuso sexual, acabou banalizando o assunto e essa não é a forma de chegar no nosso objetivo, que é a conscientização”, afirma. Silvana explica que muitas vezes a agressão sexual infantil acontece na própria casa, tento o pai ou algum outro parente como agressor, e a ausência de clareza na condução da história exporia crianças que já tenham sido vítimas de algum tipo de abuso, fazendo com que reviram o trauma. “Não podemos tratar de uma forma corriqueira aquilo que é para nos causar repulsa”, enfatiza.

O ponto chave que norteou a opção da Secretaria de Educação em recolher o livro das escolas é a abordagem do tema. Para a educadora, o autor não trabalhou a questão de a criança dizer não, pois a personagem acaba cedendo antes do trágico final. “Ele tratou de uma forma que as pessoas acabaram compactuando com aquilo, por que a personagem foi aprisionada, ela ficou na torre, e depois a mãe e as irmãs acabam sendo coniventes e aí ela já não aguenta mais essa tortura, por que ela só podia comer alimentos salgados e não beber água, e acaba cedendo”, conta.

A história não deixa claro se o casamento com o rei chegou a ser consumado ou se o pai realmente oferece a filha em casamento aos demais cavaleiros. “Por conta dessas situações nós entendemos que não é uma forma adequada, uma forma pedagógica de mostrar esse assunto para as crianças”. A secretária explica também que o tema do abuso sexual infantil é trabalhado constantemente nas escolas. “É feito esse trabalho reflexivo e inclusive existem livros que abordam o tema da exploração sexual, mas a abordagem é diferente. Não é banalizando e nós sentimos isso nessa história. O PNAIC trabalha bem a questão do letramento, de empoderar as crianças do valor literário da obra, de entender o significado e não apenas decodificar o que está escrito. Aí a gente procurar as melhores obras, os melhores títulos para subsidiar esse trabalho e nesse caso a gente viu que não teria nada a acrescentar positivamente para as crianças” justifica. A equipe pedagógica do município está fazendo uma nota técnica que vai ser encaminhada ao MEC e a Secretaria de Educação vai devolver o material.

OPINIÃO DO AUTOR

Em entrevista ao Portal G1, José Mauro Brant disse que foi surpreendido com as reclamações, pois se trata de uma história que ele conta há 25 anos, publicada há mais de 15. “Há uma desinformação do que é o conto folclórico e dos contos de fada, que são territórios que abordam assuntos delicados. A gente está falando de um universo simbólico. É uma história que dá voz a uma vítima”, disse.

De FERNANDO VERGA – Araçatuba

LIVRO INFANTIL 4 – FERNANDO VERGA

Poema que causou polêmica entre educadores aborda de forma dúbia o incesto

LIVRO INFANTIL 6 – FERNANDO VERGA

Trecho do poema “A triste história de Eredegalda”

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